Um buracão. Em seu lugar, desde que conheço esta cidade, ficava o Hotel Urupema –em uma das esquinas da bela avenida Nove de Julho. Transversal bem com minha rua Coronel João Cursino, onde vivo desde a década de 90. O prédio foi implodido num domingo de manhã em novembro passado e precisou de 50 quilos de explosivos.
Eu já vinha me preparando para este momento, pois a informação para mim chegou com um outdoor bem na “cara do gol”, escondendo já o hotel ainda em funcionamento e anunciando a construção de um edifício imponente que terá um centro de compras no térreo. A notícia me incomodou. Acho que deve ter incomodado mais gente, não é possível!
Não que eu não goste de modernidade, sou paulistana da gema e amo visitar a avenida Paulista. Mas era minha referência para explicar como me achar. “Vira na rua do Hotel Urupema e pronto!”
O hotel não era bonito, era –eu acho– em estilo meio industrial e sempre pintado de bege. O charme era o muro de pedras também beges. Mas ele tinha história…
Na minha adolescência, hospedava todos os artistas que vinham fazer shows na cidade. Me lembro como se fosse hoje o Fábio Nestares, que se tornou vocal do grupo Roupa Nova –eu tinha estudado com ele na infância– adolescente, ao lado da irmã dele, Simone Nestares, gritando feito doidos na esquina, no meio da rua, tarde da noite, depois da apresentação da banda famosa. Ele queria pelo menos um aceno do grupo do coração que estava no último andar do prédio! Viu, o Urupema dava sorte!
Aos domingos, por muito tempo, o local foi evento com seus almoços chiques –a tradicional feijoada ao som de um piano de calda que ficava no térreo. Dava para ouvir de casa. Pelo jeito que as músicas eram bem tocadas e selecionadas acho que devia mesmo ser um domingo de gente rica joseense.

Para a demolição foi contratado um engenheiro importante, que até a queda do presídio paulistano Carandiru foi responsabilidade dele. E então começou a preparação para a destruição. Foram envelopando o edifício e ao passar pelo local, eu preferia não olhar muito. Não aceitação.
Então chegou o dia do fim e nós, do quarteirão, tivemos que sair de casa e colocar adesivo nas janelas do apartamento, por segurança. Quando voltamos, olhei para o local: só entulho com ainda um pouco de poeira no ar. Então um buraco apareceu primeiro no meu coração. Por encarar “que o passado é uma roupa velha que não nos serve mais”; que junto com o Urupema eu também me sinto, às vezes, fora do tempo, velha e inútil. Que na vida as coisas mudam mesmo e não adianta ser “apocalíptica” –teoria do filósofo Umberto Eco.
Que é necessário urgentemente eu me renovar. Por fora fica mais difícil… por dentro também… mas é preciso!
Hoje pela manhã, eu indo para o trabalho, parei para olhar o buraco que está lá depois que tiraram os entulhos. Cheguei a observar dentro do buracão umas pedras bonitas e beges. Atrapalhando o futuro.
Mas como “o novo sempre vem!”, disse Belchior, eu também estou em nova fase, parei de ser professora de Língua Portuguesa em escola pública e estou buscando novidade de vida! Tomara eu aproveite, mais feliz e realizada, em futuro próximo, um café que tomarei na galeria do futuro moderno e novo prédio da minha esquina!
*Texto atualizado às 17h32 do dia 15/5/26 para correção da quantidade de explosivo usada na implosão do prédio.

> Vana Allas é jornalista (MTb nº 26.615), licenciada em Letras (Língua Portuguesa) e pós-graduada em Filosofia da Comunicação, Gestão Pública e Pedagogia para Carcerários e Hospitalares. É autora do livro “Vale, Violões e Violas – Uma fotografia do Vale do Paraíba”. Mora na Vila Icaraí.



Foto / SuperBairro 
