Escadaria do Selarón. Foto / Mário Lúcio Sapucahy

Wagner Matheus é jornalista (MTb nº 18.878) há 45 anos. Mora na Vila Guaianazes há 20 anos.

Assisti na TV e dias depois, ao deixar o Instituto Histórico e Geográfico a caminho da Lapa, vi de relance e reconheci imediatamente. Mudei meu roteiro e fui conhecer a escada do Selarón. Um taxi cruzando a rua parou bem na minha frente, despejou dois turistas que, como eu, vinham conhecer a arte do chileno carioca.

Azulejos “pra dedéu” provenientes de 124 países, resultado de muita paciência. Quando lá estive, eram 19 anos de trabalho. Subi lentamente apreciando aquele universo de símbolos e mensagens. A meio caminho, encontrei o autor sentado na sua obra, prancheta e caderno no colo, à sua volta uma garrafa de cola branca e outra d’água, revistas e estilete.

Antes de lhe dirigir palavra, fiz fotos. Cumprimentei-o e elogiei o talento. Sentei-me dois lances acima e continuei fotografando. O casal de turistas que chegara no taxi se aproximou e Selarón perguntou de onde eram, ele do Arizona, San Clemente, ela da Califórnia, San Diego.

Foto / Mário Lúcio Sapucahy

Da parte de cima da escada chegam mais turistas, Inglaterra, Polônia, Alemanha, Israel. Selarón repete a pergunta: “Where do you come from”? Convida-os a conhecer o ateliê. Um quarto pequeno, entrada estreita, teto baixo, janela voltada para a escada. De uma pasta, retira publicações de várias nacionalidades com fotos da escada e do autor, provas da sua fama internacional. Espalhadas pelas paredes e pelo chão, obras suas.

Oferece a todos um azulejo por dez reais, um cartão por pouco menos, vende alguns. Voltamos à escada onde ele autografa alguns azulejos. Me despeço e, antes de sair, ele me detém e pergunta se não tenho algum amigo que more longe, de algum lugar distante. Me lembro do Fredão, morando na Namíbia. Tenho sim, respondo. Ele me pede para conseguir desse amigo um azulejo para sua obra. “Tá bom, vou ver.”

Ao deixar a escada, vejo outros chegando, um venezuelano, um americano e outro israelense.

Fui pr’um boteco na Lapa, levei para casa fotos e três azulejos do artista com a imagem de uma negra grávida e a seguinte frase: “Viver na favela é uma arte, ninguém rouba, ninguém escuta, nada se perde, manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

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Retomei esse episódio vivido para deixar no ar uma reflexão sobre imigração e turismo. Meu amigo Fredão mudou-se da Namíbia para o Egito, do Egito para os EUA, e essa semana me disse que tudo o que quer é voltar para Minas Gerais.

Selarón, que teve fim trágico, veio do Chile. Sua arte gravada numa viela íngreme da Lapa continua atraindo turistas do mundo todo. Viajar o mundo como turista é o sonho de muitos, o turismo é um prazer. Por outro lado, imigrar é quase sempre uma saída amarga imposta aos tangidos, um drama que impõe deixar a nossa cultura e muito do que amamos e se submeter a uma difícil adaptação à terra estranha.

 

> Mário Lúcio Sapucahy é repórter fotográfico, doutor em Geografia e visitou a escada do Selarón em 2009 quando viajava a serviço, pesquisando Theodoro Sampaio na Biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro.

 

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