Cassiano Ricardo
Em meu quarto, o silêncio,
e a lâmpada que me divide em dois.
O meu quarto é mais pobre que o de Jó;
duas vezes eu e uma lâmpada só.
No salão do vizinho,
que não me convidou, a mesa alva;
e os convivas bebendo um vinho triste.
Será sangue de Orfeu? lácrima-crísti?
Porém, se o vinho é triste,
há estrelas líquidas em copos altos,
que cintilam, qual geométricos lírios,
erguidos no ar à hora dos delírios.
Sinto-me bem, assim,
não convidado, pois não bebo estrela
nem sangue; sou enteado da alegria.
A tristeza é o meu pão de cada dia.
Seria eu, na festa,
um insulto aos demais, algo de cômico.
Uma pedra aos que têm, no ombro, uma asa.
Um carvão, quando tudo, ali, é brasa.
Sinto-me bem, porque
sou um cacto com folhas de silêncio.
Não troco por nenhum gole de vinho
este meu ser noturno e submarinho.
Que só me cheguem, pois,
o terrincar das taças, o confuso
gorjeio das bacantes. Só me agrada
beber – rosa num copo – a madrugada.
Ah, se soubessem, todos,
o bem que me fizeram, excluindo-me
do banquete – o mais lógico dos olvidos –
ergueriam um brinde aos excluídos.

Cassiano Ricardo Leite foi jornalista, poeta e ensaísta. Um dos líderes do movimento pela Semana de Arte Moderna de 1922, participou ativamente dos grupos “Verde Amarelo” e “Anta”, ao lado de Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Raul Bopp, Cândido Mota Filho, entre outros artistas. Ocupou a cadeira nº 31 da Academia Brasileira de Letras, empossado em 9 de setembro de 1937. Nasceu em 26 de julho de 1895, em São José dos Campos (SP) e morreu em 14 de janeiro de 1974, no Rio de Janeiro (RJ). Fontes: Wikipédia e Google.

> Júlio Ottoboni é jornalista (MTb nº 22.118) desde 1985. Tem pós-graduação em jornalismo científico e atuou nos principais jornais e revistas do eixo São Paulo, Rio e Paraná. Nascido em São José dos Campos, estuda a obra e vida do poeta Cassiano Ricardo. É autor do livro “A Flauta Que Me Roubaram” e tem seus textos publicados em mais de uma dezena de livros, inclusive coletâneas internacionais.



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