Flávio Dino: tesoura nos penduricalhos vai funcionar? Foto / Felipe Sampaio/STF

Wagner Matheus é jornalista (MTb nº 18.878) há 45 anos. Mora na Vila Guaianazes há 20 anos.

Estive pensando nos últimos dias sobre a questão dos penduricalhos que fazem que os supersalários que uma casta de servidores públicos ganha possa avançar ainda mais, a ponto de serem chamados de hiper salários. Nós estamos falando de gente que ganha todo mês mais de R$ 50 mil, alguns mais de R$ 100 mil, outros sabe-se lá quanto mais que isso.

Acredito que gente bem empregada em empresas privadas, ou até pequenos e médios empresários, devem invejar os contracheques –é assim que se falava antigamente– desses marajás que vivem ricamente com dinheiro público.

Falei em marajá? Pois é. O tema é tão antigo e tão grave que já elegeu um presidente da República, o então jovem Fernando Collor de Mello, que descobriu que o povo iria dar a ele um caminhão de votos para que os tais marajás, que já ganhavam mega salários, fossem combatidos. Pois é, o “caçador de marajás” não caçou ninguém e hoje vive em prisão domiciliar –em uma cobertura de frente ao mar, é óbvio– tendo como acessório uma tornozeleira.

Daqueles anos 90 de Collor até os nossos anos 20 do século 21, em vez de melhorar, a coisa só piorou. Quer dizer, a falta de vergonha se tornou comum quando se trata de abocanhar dinheiro público –do povo, seu, meu, nosso. Só um exemplo: os Correios, que já estariam falidos há tempos se não fossem socorridos pelas tetas opulentas do Estado, estavam buscando R$ 20 bilhões para mais uma tentativa de salvação. Conseguiram, uma parte com grana direta do governo e outra com o governo sendo avalista de empréstimos bancários.

Enquanto a sociedade pensava que os gestores dos Correios estavam economizando até no café, coando duas ou três vezes no mesmo pó, alguém teve a boa ideia de consultar os penduricalhos dos “coitados” que trabalham na estatal. E descobriu o “vale-peru”. Isto mesmo. Uma ajuda anual de R$ 2.500 para os coitadinhos terem festas de fim de ano mais fartas. O custo total é de meros R$ 197 milhões. A notícia provocou tanta revolta que o ministro do STF Alexandre de Moraes –sempre ele– cortou a esperteza. Mas não digo nada se eles não derem um jeito de embolsar o dinheiro de uma outra forma.

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O maior problema dos supersalários alimentados pelos penduricalhos é que eles não se restringem a um Poder ou a um pequeno grupo. Vicejam nos três Poderes –Executivo, Legislativo e Judiciário– nas esferas federal, estadual e municipal, atingindo gente que tem mandato, gente que ocupa cargo de carreira e até comissionados que exercem cargos de confiança. Sempre é possível dar um jeitinho de melhorar o salário básico.

Agora, mais uma vez alguém, o ministro do STF Flávio Dino, fez o brasileiro comum acreditar em contos de fadas: determinou a extinção dos penduricalhos criados para driblar a lei que deveria impedir que qualquer servidor público recebesse mais que o presidente da República, que hoje está fixado em R$ 46.366,19 (brutos) e R$ 33.800,00 depois dos descontos.

Parecia bom demais para ser verdade. Mas o Flávio Dino não sabe com quem está mexendo. Logo após o seu ato, os marajás já começaram a se mexer para se desviarem da proibição. Alguns já falaram em uma extinção dividida por partes, outros querem refazer algumas leis para escaparem da pecha de penduricalhos, ou seja, a mesma pilantragem, mas com outro nome.

A missão de Dino é mais ingrata do que ele pensa, apesar de ele não ter nenhuma aparência de ingênuo. Fico perguntando como ele vai fazer para ter sucesso se a gente percebe claramente que o pessoal do Judiciário é o que mais gosta de penduricalho?

Enquanto isso, nós brasileiros que vivemos no país real, temos que acreditar que esta gente que ganha mais que o presidente do Brasil está interessada em resolver a vida de quem ganha dois, três ou quatro salários-mínimos? Na verdade, vivemos em dois países diferentes, um dividido por supersalários, penduricalhos e sabe-se lá o que mais no setor público; e outro em que é normal sobrar mês e faltar salário.

E você, é da turma do vale-peru ou do frango de padaria?

Wagner Matheus. Foto / SuperBairro

Wagner Matheus é jornalista (MTb nº 18.878) há 50 anos. É editor do SuperBairro. Mora na Vila Guaianazes há 24 anos.

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