“Não temos mais o tempo que passou, mas temos todo o tempo do mundo.” Foto / The5th/Pixabay

Wagner Matheus é jornalista (MTb nº 18.878) há 45 anos. Mora na Vila Guaianazes há 20 anos.

Semana passada fiquei mais velha, e eu não sei você, mas no dia do meu aniversário fico um tanto quanto pensativa. Nesse ano, dei de pensar na minha velhice. Até me lembrei da história em que perguntaram para o Galileu Galilei quantos anos ele tinha e ele respondeu: uns oito, talvez dez anos, em total contradição com a sua barba branca. Mas depois ele explica: “Tenho, na verdade, apenas os anos que me restam de vida, porque os já vividos não os tenho mais, do mesmo modo que já não tenho as moedas que gastei”.

Ah, pronto, bastou! Minha cabeça começou a fazer contas e mais contas –aliás, jornalista é péssimo nesse quesito– e fui ficando macambúzia, sorumbática, quando pouso meu olhar no meu cachorrinho, o Johnny, dormindo gostoso ao meu lado, e me vem à cabeça que ele já gastou bastante do seu tempo, já está ficando sem moedas…

Fiz um carinho nele (que que me olhou com cara de: dá pra me deixar dormir em paz?) e fiquei pensando nas inúmeras limitações que ele já está apresentando por conta da idade avançada e do quanto ele necessita dos nossos cuidados.

Johnny já não sobe mais na cama nem no sofá, mas se recusa a dormir no chão porque ele simplesmente não sabe o que é isso. Então, eu, marido e filho, com toda a paciência do mundo, ficamos de olho para saber quando devemos entrar em ação e socorrer o fofinho.

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Também não ouve mais nada, surdo como uma porta. Mas inacreditavelmente ele ouve os estalos que os meus joelhos dão quando me levanto e saio de perto dele. Vai entender…

Antes ele ouvia o barulho do elevador e ficava me esperando na porta. Agora, acho que com medo de não me ver chegar, fica indo e vindo o tempo todo perto da porta. Às vezes se cansa, dorme e, quando eu chego, vou para perto dele e percebo seu narizinho mexendo pra lá e pra cá, captando meu cheiro. Alguns segundos depois e pronto, se levanta todo feliz, abanando o cotoco de rabo com tanta força que a bundinha balança junto.

Por conta de não estar ouvindo e com baixa visão, seu olfato ficou muito mais apurado, então uso de alguns artifícios para não o acordar quando tenho que sair. Outro dia, por exemplo, estava no computador e ele, pra variar, dormindo no sofá, bem próximo a mim. Como tinha que sair e não queria que ele acordasse, peguei um rodo, encaixei entre a mesa e a cadeira, peguei uma blusa minha e pendurei no rodo abraçando a cadeira. Tudo para dar a impressão de que eu continuava lá, caso ele visse o vulto e sentisse o cheiro (confere na foto).

Pode não parecer, mas esta sou eu para o meu cachorro. Foto / Arquivo pessoal

Deu supercerto com o Johnny, mas os demais moradores da casa levaram um baita susto quando entraram na sala e se depararam com aquele espantalho. Fazer o que? Nós que amamos os nossos bichos de estimação somos capazes de tudo para que eles não sofram.

Um grande amor

Outra mania que ele pegou depois que ficou velhinho é anunciar que fez o número 1 ou o número 2. Ele faz o xixi (geralmente no tapete higiênico que fica na sacada) e sai correndo pela casa toda, tirando fina de tudo quanto é móvel, pé de cadeira, parede… A gente ri e ao mesmo tempo fica agoniada, com medo dele bater em alguma coisa.

Outro dia ele fez isso na rua. Acabou de fazer o número 2 na calçada e, enquanto eu recolhia a caca, começou a correr como se não existisse amanhã. Eu, que tenho problemas nos joelhos e não corro faz tempo, só fiz gritar para o cachorro que, como você já sabe, é surdo.

Foi então que tive a ideia de ir para o meio da rua, caso ele tivesse a grande ideia de fazer o mesmo. Dito e feito, quando ele percebeu que já não conhecia mais o lugar onde estava, resolveu atravessar a rua. E eu segurando os carros como uma verdadeira agente de trânsito. A hora que peguei ele no colo nossos corações estavam a mil e o pessoal nos carros me encarando como se eu fosse louca. Aaaraaa, como assim? Ninguém nunca correu atrás de um grande amor?

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Pois é, definitivamente, ficar velho dá trabalho. E há que se ter muita paciência, algo que só conseguimos quando temos respeito e amor. E pra falar a verdade, fico indignada quando vejo posts de cachorros e gatos que foram abandonados por estarem velhos. Alguns cegos, outros com problemas de locomoção. Que pessoa é capaz de fazer isso com um ser indefeso? Pior é quando decidem pela eutanásia, que horror!

Certeza de que um ser dessa categoria nunca pensou se gostaria que fizessem o mesmo com ele na sua velhice, que o jogassem num asilo pra nunca mais, por exemplo. Aí vem aquele que acha que estou exagerando e fala: calma Edna, não dá para comparar bichos com pessoas.

Nem é uma questão de comparar um com o outro, mas dá perfeitamente pra saber se uma pessoa é do bem a partir de como ela trata os animais. E só mais uma coisinha: também não adianta tratar maravilhosamente bem os animais e ser um imbecil com as pessoas. Amor e respeito são sentimentos de mão dupla e cabem em qualquer relação.

E chega de papo porque meu cachorro está ameaçando pular do sofá e, da última vez que ele fez isso, deixei mais de 700 reais no veterinário porque ele se descadeirou todo, tadinho. E só pra constar: resolvi que não vou contar nem os anos que se foram e nem os que estão por vir, porque o que vale é o presente, hoje eu tenho um dia de vida e vou tratar de vivê-lo bem.

Faça o mesmo, querido(a) leitor(a)!

Adote

 

> Edna Petri é jornalista (MTb nº 13.654) há 39 anos e pós-graduada em Comunicação e Marketing. Mora na Vila Ema há 20 anos, ama os animais e adora falar sobre eles.

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