Condecoração: enfrentando a dureza dos anos 80 na imprensa, o colega Flávio Nery sofreu golpes pesados, mas manteve sempre a postura combativa e profissional. Em tempo: a credencial foi restituída logo depois. Foto / Acervo Estadão/Reprodução

Wagner Matheus é jornalista (MTb nº 18.878) há 45 anos. Mora na Vila Guaianazes há 20 anos.

Acabo de ler um texto de Wagner Matheus em homenagem ao jornalista Flávio Nery Azevedo, que morreu em 18 e abril e foi sepultado na manhã seguinte. Antes, havia lido outros de Hélcio José da Costa, também em homenagem ao velho amigo.

Como fui citado por ambos, e como amigo de muito tempo e parceiro dos três por bons e longos tempos, achei oportuno reunir algumas histórias típicas do exercício da reportagem e vividas com Flávio Nery. O intuito, além de homenagear, é ressaltar nos atos e vivências o que dizia o velho Cláudio Abramo: o jornalismo é, sobretudo, um exercício do caráter.

Às histórias.

Nery 1

No tempo das velhas e divertidas rivalidades entre cidades vizinhas, a expressão Taiada, que identifica o típico doce caçapavense, quase virou gentílico. Pelo menos, era assim na boca dos brincalhões, uma espécie de pecha que jamais produzia rusgas nem profundas divergências.

Flávio Nery, por seu espírito sempre brincalhão e por vezes provocativo, era vítima predileta de muitos amigos. Ele retribuía tratando cada um e todos por “vagau”, algo como malandro, preguiçoso. Para se defender, também criou a própria teoria do local de nascimento.

– Fui concebido em Santos, cidade praiana, terra de liberdade e de prosperidade. Aí… papai… que era ferroviário… foi transferido para Caçapava, e trouxe mamãe em estado avançado de gestação. Foi, portanto, por mero acidente histórico que vim à luz na cidade simpatia, mas sou na verdade um legítimo produto santista.

Nery 2

Ao telefone, o Flávio me avisa: “Caiu um avião em Caçapava, vamos pra lá?”

Chegamos à fazenda e lá estava um Tucano T-27 da Embraer plantado no arrozal. O piloto, oficial da Força Aérea, sentado na ponta da asa, ia limpando os arranhões do rosto e dos braços, sem levantar os olhos. Perguntamos se ele estava bem e o que havia acontecido.

– Caiu… não tá vendo?

– Mas caiu por quê? – arguiu o Nery.

– Sei lá! Perdeu potência… melhor vocês irem embora daqui que a PA está chegando… Vocês não podem ficar aqui.

A viatura da Polícia da Aeronáutica chegou logo a seguir. Comandados pelo sargento, dois soldados de fuzis em punho e baionetas caladas nos cercaram e nos levaram detidos para a viatura e daí para o CTA –à época, Centro Técnico Aeroespacial.

Entregues na sala do coronel chefe de Relações Públicas, fomos avisados da abertura de uma sindicância para instruir o inquérito policial militar. Pior que isso, passamos grande parte do dia ouvindo sermões sobre a infração cometida, o grave desrespeito à segurança nacional, a alegada interferência na cena do acidente antes que os militares chegassem para investigar as causas.

Ouvimos inúmeras ladainhas e ameaças ao nosso trabalho, sem nunca perder a calma. Afinal, já tínhamos a descrição das manobras anteriores ao acidente, falamos com o piloto e testemunhas, fotografamos. A matéria já estava encaminhada, faltavam apenas detalhes do voo de ensaios por conta da Embraer e as inevitáveis teorias sobre a queda de potência da aeronave.

Foi tudo para os nossos jornais no dia seguinte. Eu por “O Globo” e ele por “O Estado de S. Paulo”.

E o Nery se vangloriava: “Que inquérito porra nenhuma. Eles não vão ter coragem de peitar o Estadão!!!” Dito e feito.

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Nery 3

Eram tempos bicudos aqueles, dos anos 1980. As pressões e ameaças contra o trabalho dos jornalistas eram constantes, e rotineiras as proibições de entrevistas, de acesso aos departamentos do CTA. Certa vez, fui retirado de uma solenidade pública de formatura de alunos do ITA e proibido de entrar no instituto –era persona non grata por ali. Claro que voltei. Várias vezes.

Mas não me lembro de ter ouvido o Nery reclamar desse tipo de pressão. Como reação, ele apenas diversificara suas fontes, mudara seus trajetos, buscava o contato com as fontes fora do ambiente de trabalho delas e nunca recorria aos canais oficiais.

Até encontrou pontos estratégicos de onde podia flagrar o primeiro voo dos aviões da Embraer, especialmente os militares –a nós, interessava o primeiro voo de produção, porque o voo oficial era evento festivo, mera formalidade. Nery sempre sabia do roteiro e realização dos testes dos novos aviões, dos motores de foguetes do CTA, dos blindados da Engesa e da Avibrás.

Só não se conformava com o afastamento de certas fontes. Quando tinham interesse a defender, chamavam o repórter para passar dados, muitas vezes com relatórios internos. Tudo em off.

Eram coronéis, majores, capitães e outros que costumavam vazar informações sobre o andamento de projetos, especialmente quando faltavam verbas, quando o comando mudava a prioridade ou quando as pesquisas eram travadas por pressões e embargos tecnológicos dos Estados Unidos e da Alemanha.

Muitas dessas pautas renderam primeira página no Estadão. Mas as fontes foram secando. À medida em que eram promovidos e se aproximavam do generalato, esses militares se bandeavam.

Os problemas e dificuldades dos projetos persistiam, mas as velhas fontes agora eram do alto escalão, não se expunham mais. Pelo contrário, passaram a proibir entrevistas, brandiam regulamentos, abriam sindicâncias, convocavam repórteres para depoimentos.

Também enfrentei algumas dessas situações. Fui verbalmente agredido e ameaçado de várias formas, proibido de entrevistar especialistas e de tocar em certos temas, incurso em inquérito e sindicâncias. Mas nunca houve processo nem prisão. Foi pura pressão.

Nery, por sua vez, nem reclamava. Somente lamentava que aqueles que, no passado, usaram do expediente de dar informações em off para pressionar por verbas e aprovação de projetos, já nem se lembravam do repórter, muito menos do cidadão.

Flávio dizia que tais fontes não precisavam mais lhe dar informação. Merecia e lhe bastaria um cumprimento, alguma consideração, pelo menos.

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Nery 4

Outra vez, o Flávio me ligou e foi vai direto ao assunto.

– Sabe aquele padre de Aparecida? É… isso… o Padre Sotillo? Aquele sacana me deu um pontapé na bunda, você acredita?

Administrador da Basílica Nacional, Noé Sotillo era um grandalhão simpático e muito franco nas conversas com jornalistas. Não era difícil fazer amizade nem discutir com ele temas mais intrincados para a época, como a capacidade financeira da Basílica, as propriedades em imóveis e bens recebidos em doação, o volume de donativos, o gasto em obras e manutenção.

Nery estava na Basílica com uma pauta especial, encontrou Sotillo e foi rodeando o assunto que lhe interessava. Um risinho aqui, uma provocação ali, e quis saber o total arrecadado dos romeiros durante a Festa da Padroeira. A conversa seguiu, mas ficou tensa, até que o repórter achou oportuno comentar uma passagem bíblica.

– Não esquece que Jesus expulsou o vendilhões do templo!!!

– Pois eu vou te pôr pra fora a pontapé!!! É o que você quer? –ameaçou Noé Sotillo, já desferindo o primeiro golpe.

Flávio saltou à frente, rodopiou, recompôs-se e levou a conversa para o lado mais calmo. Superaram o climão e fonte e repórter não brigaram nem discutiram mais. Continuaram se entendendo em outros assuntos e por muitas matérias depois.

Ao que tudo indica, Flávio Nery e seu fotógrafo saíram da Basílica com uma matéria apurada, mas não tiveram sucesso em cumprir na íntegra a pauta sugerida. O objetivo final era flagrar e registrar a passagem de uma procissão de malotes abarrotados de dinheiro miúdo fazendo o caminho da Basílica para alguma agência bancária.

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Nery 5

Houve um tempo em que toda repartição pública era orientada a colocar em posição de destaque a foto oficial do presidente da República, geralmente na sala da chefia, e, dependendo do lugar, cabia até a imagem do próprio chefe.

No Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), era mais ou menos assim. Num certo tempo, quando o MDB ainda era o Manda Brasa, dizia-se que o poder emanava de Ulysses Guimarães, então presidente da Câmara dos Deputados, e em seu nome era exercido. Foi provavelmente por isso que a foto da grande liderança nacional ganhou o lugar central na parede por detrás da mesa do diretor geral do Inpe.

A sala era de Marco Antônio Raupp, matemático de proa no cenário cientifico do país e bem relacionado na cúpula do MDB do Rio de Janeiro. Chegara ao cargo com apoio da Academia Brasileira de Ciência e de partidários proeminentes, bem como dos emedebistas de São José dos Campos.

Raupp assumiu sob clara desconfiança dos militares, em especial os da Aeronáutica, ávidos pelo controle completo do Programa Espacial Brasileiro –até o acusavam de ter ligações escusas com simpatizantes do Partido Comunista. Enfrentava também inimigos internos insatisfeitos com o que consideravam uma perigosa abertura do instituto à interferência política.

Para afastar as desconfianças e expressar a segurança quanto à sua permanência no cargo, Raupp convocou uma entrevista coletiva, falou e respondeu perguntas por mais de uma hora. Terminada a entrevista, os repórteres foram saindo. Apenas eu e Flávio Nery seguimos conversando com o diretor do Inpe.

Quando entramos novamente no gabinete, Nery apontou o retrato de Ulysses pendurado na parede e, do seu jeito brincalhão e sorridente, provocou: “Mas Raupp, você está seguro, porque você tem o vovô Ulysses lá em cima, e enquanto ele estiver lá você está firme no cargo”.

O diretor sorriu sem esconder a felicidade e praticamente repetiu a frase: “Enquanto vovô estiver mandando lá, eu continuo por aqui”. E todos sorriram abertamente.

Mais tarde o Nery me ligou. “Você vai usar aquela frase final?”

– Claro que vou, ou você quer exclusividade? A pergunta foi sua.

– Não, pode usar, é bom que fica mais forte a declaração.

“O Globo” não deu muita importância, preferiu uma nota curta de canto da página, sem destaque para a frase.

O “Estadão” explorou a íntegra da fala na primeira página e a repercussão foi imediata. Estava selada a sorte de Marco Antônio Raupp e a demissão dele saiu no mesmo dia.

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Nery 6

Flávio Nery sempre arrancava boas histórias e declarações com os recursos do bom humor, mas era também um perguntador persistente, curioso. Incomodava, às vezes, como acontece aos bons repórteres, mas sem deslizes éticos.

Sempre guardou segredo profissional, e com isso ganhava a confiança das fontes. Jamais entregou uma fonte, da mesma forma que foi discreto e ousado no trabalho investigativo.

Certa vez sumiu no mapa, não ligava e nem aparecia nos pontos de encontro frequentados pelos repórteres.

Estava mergulhado numa investigação, pois soubera que um político da região estava erguendo uma bela mansão a custos claramente incompatíveis com os rendimentos.

Nery apresentou-se como candidato a emprego, ajudante de marcenaria de preferência. Ficou amigo de alguém e passou a frequentar o local da obra. Com uma câmera escondida, registrou o movimento, o andamento dos trabalhos, plantas e depósitos de material, fez um verdadeiro dossiê.

Fotografou pelo menos uma carreta de toras de madeira de lei extraídas da Amazônia, vindas diretamente do norte do Mato Grosso. Acompanhou o processamento da madeira, que soube ser ilegal, e os trabalhos de instalação de pisos, escadarias, protetores, mezaninos, armários, portas e janelas.

O levantamento ajudou a reforçar os dados sobre o perfil do político, que tinha muito mais a responder, além daquela obra quase faraônica. Ninguém jamais ouviu de Flávio Nery qualquer menção sobre o assunto. Afinal, trabalhou em segredo e o que produziu não lhe pertencia, mas apenas ao jornal em que trabalhava.

 

> Eustáquio de Freitas, mineiro de São Miguel, formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), curte um pouco a vida na Vista Verde, bairro onde mora, depois de 40 anos de atuação na imprensa, em jornais como “O Globo” e “ValeParaibano”, além de assessorias de comunicação municipal, estadual e federal.