Criado para começar em um sábado e terminar em uma terça-feira, só mudando os dias do mês a cada ano, o Carnaval brasileiro parece que não tem mais limite. Vai acabar tomando cada vez mais espaço e usando a fantasia da cara-de-pau.
Este ano está igual. Acho que ainda era o sábado passado, dia 7, quando abri o portal UOL para ver como estava a saúde dos “craques” do Santos para o próximo jogo, e já me deparei com imagens gigantescas do Carnaval de blocos em São Paulo e no Rio. Distraído, me perguntei: “Mas já começou o furdunço deste ano?”. Nada disso, nós estávamos apenas no pré-Carnaval, ou no que a moçada prefere chamar de esquenta.
E põe calor nisso! Um desses blocos, o Baixo Augusta, da eternamente musa –com o meu voto– Alessandra Negrini, parece ter reunido algo como 1 milhão e meio de pessoas. (!!!) Gente, isso é a metade da população do Uruguai reunida em um mesmo espaço, pulando, gritando, xavecando, beijando, bebendo…
Como eu dizia, do sábado passado em diante a coisa não parou mais, pelo contrário, a cada dia o “calendário da folia” –termo antigo– aumenta ainda mais. O recheio desse bolo continuará sendo, em termos de espetáculo, os desfiles das escolas de samba do Rio e de São Paulo. Mas é inegável que a festa já passou a ser comandada pelos blocos, que antes eram mais tímidos e reuniam turminhas de bairro e de balada.

Hoje, o Carnaval é outro. Quer alguns exemplos?
– Não existe mais cantor/cantora de Carnaval. São os mesmos nomes que bombam o ano inteiro e sobem nos trios elétricos para cantar mais do mesmo, só que com um temperinho carnavalesco.
– Ninguém liga mais para fantasia elaborada, com temática histórica e recado político ou comportamental. Agora, o mínimo é o máximo. Short, camiseta ou abadá, quando é o caso.
– Aos poucos, o Carnaval brasileiro deixou de ser uma festa nota 10 no Rio de Janeiro, nota 6 na Bahia e em Pernambuco e nota 3 em São Paulo, beirando o zero nos em outros estados. Hoje, Carnaval é nota 10 quase em todo o país. E ainda melhor nos estados citados aí acima.

– Mudança mais recente está acontecendo no caso das rainhas de bateria e musas das escolas de samba mais poderosas. As sambistas de carreira, com samba nas veias e em todos os músculos do corpo, estão começando a perder espaço para as influencers e outras espécies parecidas, que começam a aprender como se samba depois de derrubar a rainha anterior e fechar negócio com o presidente da escola. Ou seja: mais business na festa.
Para finalizar, comparando o Carnaval de hoje com os de até recentemente, as mudanças avançam para muito além da quarta-feira de Cinzas. Antes, a gente já sabia que aquele dia seria de ressaca para quem pulou os quatro dias, da saída do Bacalhau do Batata pelas ruas de Olinda para fechar “oficialmente” o Carnaval e, finalmente, do show de choros, suores, apertos de figas e talismãs nas mãos trêmulas, proporcionado pelos dirigentes das escolas durante a apuração das notas do desfile. Fora os quebra-paus entre as torcidas.
Aposto que neste ano ainda haverá “eventos” da folia pelo menos por mais uma semana depois do Batata passar. O que significa que até letras de músicas sobre o Carnaval ficaram obsoletas. Por exemplo, uma das mais famosas, com letra do mestre Vinicius de Moraes, termina, antiquadamente, assim:
– Pra tudo se acabar na quarta-feira…
> Wagner Matheus é jornalista (MTb nº 18.878) há 50 anos. É editor do SuperBairro. Mora na Vila Guaianazes há 24 anos.


Bloco Bacalhau do Batata, de Olinda (PE). Foto / Instagram 
