Foto / Reprodução

Wagner Matheus é jornalista (MTb nº 18.878) há 45 anos. Mora na Vila Guaianazes há 20 anos.

Cassiano Ricardo

 

Em meu quarto, o silêncio,

e a lâmpada que me divide em dois.

O meu quarto é mais pobre que o de Jó;

duas vezes eu e uma lâmpada só.

 

No salão do vizinho,

que não me convidou, a mesa alva;

e os convivas bebendo um vinho triste.

Será sangue de Orfeu? lácrima-crísti?

 

Porém, se o vinho é triste,

há estrelas líquidas em copos altos,

que cintilam, qual geométricos lírios,

erguidos no ar à hora dos delírios.

 

Sinto-me bem, assim,

não convidado, pois não bebo estrela

nem sangue; sou enteado da alegria.

A tristeza é o meu pão de cada dia.

 

Seria eu, na festa,

um insulto aos demais, algo de cômico.

Uma pedra aos que têm, no ombro, uma asa.

Um carvão, quando tudo, ali, é brasa.

 

Sinto-me bem, porque

sou um cacto com folhas de silêncio.

Não troco por nenhum gole de vinho

este meu ser noturno e submarinho.

 

Que só me cheguem, pois,

o terrincar das taças, o confuso

gorjeio das bacantes. Só me agrada

beber – rosa num copo – a madrugada.

 

Ah, se soubessem, todos,

o bem que me fizeram, excluindo-me

do banquete – o mais lógico dos olvidos –

ergueriam um brinde aos excluídos.

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Cassiano Ricardo Leite foi jornalista, poeta e ensaísta. Um dos líderes do movimento pela Semana de Arte Moderna de 1922, participou ativamente dos grupos “Verde Amarelo” e “Anta”, ao lado de Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Raul Bopp, Cândido Mota Filho, entre outros artistas. Ocupou a cadeira nº 31 da Academia Brasileira de Letras, empossado em 9 de setembro de 1937. Nasceu em 26 de julho de 1895, em São José dos Campos (SP) e morreu em 14 de janeiro de 1974, no Rio de Janeiro (RJ). Fontes: Wikipédia e Google.

Júlio Ottoboni. Foto cedida

> Júlio Ottoboni é jornalista (MTb nº 22.118) desde 1985. Tem pós-graduação em jornalismo científico e atuou nos principais jornais e revistas do eixo São Paulo, Rio e Paraná. Nascido em São José dos Campos, estuda a obra e vida do poeta Cassiano Ricardo. É autor do livro “A Flauta Que Me Roubaram” e tem seus textos publicados em mais de uma dezena de livros, inclusive coletâneas internacionais.

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