Conheci São José dos Campos em 1962, quando meu pai veio de São Paulo para ser diretor financeiro e administrativo da revendedora DKW. Mudamos para cá de mala e cuia em janeiro de 1964, às vésperas do Golpe Militar. São José não era mais aquela localidade pequena, estava crescendo a ritmo rápido.
A cidade anterior não conheci pessoalmente, mas dela tive abundantes notícias justamente por meio dos moradores, nativos ou não. Pelas atividades que desenvolvi já adolescente, e depois adulto, fui me inteirando em detalhes daquela cidade então pré-moderna: a São José dos Campos antiguinha, carente de recursos, mas abundante na criatividade popular.
Era uma época de jovens como Pedrinho David e seus amigos, que se divertiam sequestrando alguma galinha desavisada e alheia –em noites tediosas– para degustá-la em jantares clandestinos à luz de velas! Travessuras da juventude de outrora.
Pregar peças nos outros também divertia jovens e marmanjões adultos, alguns insuspeitos. Na Prefeitura de São José, o gozador por excelência era o saudoso Zezé Teixeira, chefe da mecanografia, que aprontava sustos articulados nos colegas.
Certa feita, sabedor que zeloso funcionário gostava de trabalhar à noite para colocar o serviço em ordem, Zezé bolou uma grande peça. Ficou escondido no recinto principal da Municipalidade, com muitas mesas, balcões e cadeiras. O prédio? Aquele da Rua XV de Novembro na esquina com Rua Sebastião Hummel, todos conhecem agora como Biblioteca Municipal.
No decorrer desse dia haviam ficado o Zezé e seus companheiros criando um clima, num papo de fantasmas do prédio antigo, erguido em 1906 para ser o Cine Teatro São José. Corriam mesmo várias estórias de assombrações, vultos e miasmas no vetusto imóvel. Diziam que eram pessoas assassinadas, ou antigos servidores falecidos, ressentidos e vingativos, que vinham atrair os incautos para o além.

Pois bem, à noite apareceu o coitado escolhido como vítima, que foi logo para sua mesa onde pousava uma provecta máquina de datilografia. Aos mais jovens, explico que era assim que as pessoas passavam para o papel todo tipo de escrita, numa geringonça mecânica de aço, tendo de usar certo vigor para escrever. Bater mesmo, letra por letra.
O nosso amigo não havia nem bem começado quando ouviu um ruído estranho, parecia que havia alguém a datilografar também. Olhou em volta: tudo vazio, ninguém, silêncio total. Voltou à sua máquina. Dois minutos depois o barulho voltou. Aproximou-se, já temeroso, de um lugar no fundo do salão, quando veio o choque: uma máquina de datilografia se movimentava sozinha, mas não havia viva alma no local. As teclas batiam: teque, teque. Havia um fantasma!
Branco como o sulfite do papel datilografado, o infeliz servidor, após congelar por segundos, saiu na maior correria da sua vida, no afã de evitar as garras do fantasma da repartição! Esbarrava nas cadeiras, derrubava coisas, até que, esbaforido e de olhos esbugalhados, continuou em desabalada carreira rua afora.
Num canto da repartição, o zombeteiro Zezé, rolando no chão de tanto rir do pavor do coitado. Logo os comparsas da travessura apareceram e tudo virou uma patuscada, como se dizia, regada a bebidas no bar. Divertimentos de então.
Além dessas brincadeiras, cômicas para alguns, desafiantes para as vítimas, as quais no final não levavam muito a sério essas travessuras, nem se ressentiam delas. Era na verdade um humor muito simples, fundado no deboche, para muitos a forma mais grosseira de humorismo. O chamado humor de constrangimento. Sei lá, humorismo raiz.
Como sempre, comentei isso com a vivida tia Filoca. Respondeu a tia:
– Eu já vi muito disso lá em Itu! Não cabe mais, meu filho. Hoje tem o tal do politicamente correto. E quer saber? O mundo mudou, a gente tem de ir se adaptando. É o que faz esta velha aqui. Essas malvadezas não têm mais lugar. Mas eu digo a você, se fosse uma das minhas galinhas, aqueles estafermos iriam ver o tamanco zunir nas suas orelhas grandes!

> José Roberto Fourniol Rebello é formado em direito. Atuou como juiz em comarcas cíveis e criminais em várias comarcas do estado de São Paulo. Nascido em São Paulo, vive em São José dos Campos desde 1964, atualmente no Jardim Esplanada. Participou do movimento cultural nascido no município na década de 60.




