Após o encontro com tia Filoca e sua emocional narrativa de suas agruras no aeroporto, finalmente ela veio à minha casa e contou o resto de sua peregrinação pelo exterior:
– Zezinho, você não tem viajado, que eu saiba, mas viajar de avião daqui para a Europa é um martírio para alguém da minha idade. Não que eu seja velha –velho é trapo–, é que alguém experiente na vida mereceria melhor conforto quando pega um voo de muitas horas para admirar a belíssima Itália.
Respondi: – Tia, você naturalmente deve ter ido na classe executiva, não? Eu sei que você tem um dinheirinho guardado…
Aí ela soltou o verbo no restante:
“Deus me livre gastar aquela exorbitância na tal executiva, mais que o dobro, nem na tal de primeira classe, privilégio de políticos e jogadores milionários. Fui eu e minha amiga Maroca na econômica mesmo, onze horas de voo, sem contar o tempo de entrada e saída nos aeroportos. Bom era assistir em São Paulo o subir e descer dos aviões do terraço de Congonhas!
Depois –continuou naquele seu estilo–, você não vai acreditar que inferno foi, só não digo a companhia aérea. Sabia que eles agora apertaram as poltronas num espaço mínimo, porque o avião é daqueles largos, com dois corredores e dez poltronas em cada fileira? A minha sorte foi ficarmos no meio, pois poderíamos sair para o banheiro com mais facilidade.
Os problemas já começaram ao entrar para ir às poltronas. Corremos para ser as primeiras a guardar as mochilas. Uma aeromoça ressentida e pedante, de fala espanhola, ao invés de ajudar ficou só olhando as duas idosas acomodar com dificuldade a bagagem de bordo.

Os assentos, Zezinho, eram perto do banheiro. Bom? Negativo. A noite toda era um tal de gente apertada fazer fila ali perto, um entra e sai, você não dorme, os caras fazendo careta para não molhar a roupa ou pior. Saiam do WC com aquela expressão aliviada, porém deixando tudo um caos, papéis usados para todo o lado. Quando você quer se aliviar é tampar o nariz e enfrentar.
E tem de ir ao banheiro antes de eles virem com o carrinho com aquelas delícias da culinária –suposto nhoque ao molho de saquinho, carne de segunda e frango não identificado. Dormir foi missão impossível.”
Interrompi a tia: – Mas você dormiu, confessa, tia.
“Nada, nada. Não preguei os olhos a noite toda. Além das câimbras na perna, toda hora a me obrigar a um alongamento. Fiz aqueles exercícios chatíssimos de panturrilha.
Tinha os fanáticos pelos filminhos antigos na telinha a sua frente, mesmo espremidos como sardinha em lata. Uma lambisgoia a minha frente colocou um filme, dormiu quase depois e o vídeo chato ficou repetindo, repetindo por horas, iluminando o meu rosto pelo vão das poltronas. Não dormi, mas em compensação sei de cor o maldito filme!

Só para abreviar, no meio da noite, um frio medonho do ar condicionado –idosos sofrem mais, você sabe–, fui até o fundo do avião, jornada de uns trinta metros tropeçando em pernas, pés e sacolas para encontrar aquela mesma aerochata lá no compartimento da tripulação. A fulaninha estava num papo furado com um conterrâneo, espécie de namorinho, e eu fiquei lá parada bem uns cinco minutos até ela se dignar a olhar aborrecida para minha cara.
Falei que estava com frio, pedi dois cobertores. Com muita má-vontade me deu dois, quase jogou. Nem agradeci a essa comissária-modelo. Na saída da aeronave, de passagem, dei-lhe um bom beliscão na perna!
Voltei, o voo já estava no fim, acenderam as luzes tipo cinco horas da manhã para o café das estrelas. Não adiantou nada o reforço de cobertor. Aí toma chá de espera, descem antes os da primeira classe, os da executiva, os que tem um clube do escambau, todo o povo brasileiro de pé durante uma meia hora. Saímos quase por último, eu quase que de quatro!
Não preciso contar as peripécias de duas brasucas maduras no Velho Mundo, mas, só pelo que passei mais uma vez poderia dizer: Não viajo mais, gente! ”

> José Roberto Fourniol Rebello é formado em direito. Atuou como juiz em comarcas cíveis e criminais em várias comarcas do estado de São Paulo. Nascido em São Paulo, vive em São José dos Campos desde 1964, atualmente no Jardim Esplanada. Participou do movimento cultural nascido no município na década de 60.


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