A tia Filoca me deixou tonto com suas diatribes no aeroporto. A notícia seguinte foi a de que vinha passar o Natal conosco neste ano. Confesso que fiquei preocupado, precisava saber a quantas andava o humor oscilante dela. Liguei, parecia tranquila. Ledo engano…
Logo que chegou, ficou a pontificar, foi mexendo nos meus arquivos e se pôs a ler vários escritos meus, sem licença.
A tia Filoca, no entanto, estava a toda:
– Zezinho, já li todas estas coisas que você vive a rabiscar, como estas crônicas de Natal que você já colocou na mídia eletrônica. Uma tem um sabiá porcalhão e você ficou cheio de sentimentalismo, esta outra fala de enfeites, significado cristão, origem do Papai Noel, fantasia da Coca-Cola, outra a volta do bendito sabiá, parece filme americano. Uma pieguice só.
E continuou cáustica:
– Duro mesmo era o Natal de quando eu era pequena lá em Itu, só tinha procissão de um vigário chato, a missa do galo, a gente querendo dormir e tinha de ir até a igreja da Matriz, senão o galo cantava lá em casa.

Interrompi a titia:
– Foi bom você falar, tia, lembra-se daquele formidável conto do Machado de Assis, Missa do Galo? Merece leitura, uma obra-prima. O chamado “Bruxo do Cosme Velho” faz um relato aparentemente simples, porém muito simbólico. Das entrelinhas o leitor descobre costumes da época, desejos, relações humanas complexas e muito mais, enfim, um conteúdo riquíssimo. Daí porque é considerado o maior literato brasileiro até hoje.
A tia não se abalou:
– Que Machado, que nada! Li pouquinho, gostava mais dos romances de amor. No meu tempo machado servia para outra coisa! Tempo difícil, a ceia não era sempre farta e não havia esse glamour. Muitas missas, rezas o dia inteiro, reunia-se com a família, naquele respeito e cerimônia que não existem mais. Mas eu me lembro dos natais de quando você era pequeno, Zezinho.
Aí eu me assustei um pouco, pois as lembranças desse período, sobretudo já na década de 1950, são esmaecidas e são memórias de um menino algo travesso, depois adolescente. Com a visão limitada de alguém nessa fase da vida. Indaguei à tia:
– Do que você se lembra, tia?
Ela, toda satisfeita e se achando, soltou-se:
– Ah, eu me recordo de você, menino bonzinho, era o mais agitado dos irmãos, dava um pouquinho de trabalho porque gostava de ir à rua brincar com a molecada. Aquela meninada a maior parte sem educação, falando palavrões. Enxotei muito moleque cascudo com a vassoura! Sentava nas cabeças deles, estafermos!

– Mas e os Natais, tia?
– Nos Natais em São Paulo, vocês gostavam de colocar os sapatinhos debaixo da árvore para mostrar ao Papai Noel quem ganharia presentes e iam dormir cedo na véspera. A ceia não era para crianças, mas só para os adultos. Era bastante panetone, presunto, frios, nozes, castanhas portuguesas e outros pratos finos, regados a vinho e licores. Crianças? Vão se deitar e não façam barulho! De manhã, dia de Natal, aquela surpresa: muitos brinquedinhos, era uma farra, mas depois sobrava pra mim na hora da limpeza da sujeira dos benditinhos.
A tia Filoca falou e eu fiquei a pensar. Lembro-me que ficávamos muito tempo excitados, ouvindo o barulho dos adultos na sala e mesmo a arrumação dos presentes. Demorávamos em dormir e sorrateiramente tomávamos os restinhos de vinho largados nos copos. Cedo, eu era um dos que logo pulava da cama e corria à sala. Ficávamos muito felizes com os presentes: revólveres de brinquedo para os meninos, bonecas para as meninas; os piões de metal, apertávamos para ficar girando, aqueles indefectíveis blocos de montar, carrinhos de lata. Sempre a mesma coisa, contudo, mas ficávamos satisfeitos naqueles anos inocentes.
A nota final da tia, para espicaçar:
– Quando vocês reclamavam a nós, adultos –“eu quero isto, eu quero aquilo”– nós sapecávamos nas suas orelhas: – Criança não tem querer! Raspa!

> José Roberto Fourniol Rebello é formado em direito. Atuou como juiz em comarcas cíveis e criminais em várias comarcas do estado de São Paulo. Nascido em São Paulo, vive em São José dos Campos desde 1964, atualmente no Jardim Esplanada. Participou do movimento cultural nascido no município na década de 60.


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