É impressionante. É quase inacreditável. Já faz uns 15 dias que foi aberta a temporada de confraternizações de fim de ano, também conhecidas como “confras” pelos modernos. E isto está se tornando coisa para profissional…
Você só vai sendo comunicado. Tal dia, reunião do grupo do coral; no dia seguinte, o pessoal da malhação na academia vai ceder às bombas calóricas das comidas de boteco; no sábado, duas “confras”, primeiro você vai fofocar com as mães e pais da escola dos filhos, depois tem de ir fazer papel de santinho nos comes e bebes (não alcoólicos!) do grupo de orações.
Já está a ponto de ligar para a psicóloga? Calma, tem mais. No Bar do Coronel, vão se reunir os colegas da firma atual. Mas não chute o balde, porque dois dias depois será o encontro anual dos ex-colegas de trabalho daquela outra firma, lá no Chaparral da Villa. No meio de tudo isso, têm aqueles amigos e amigas que se esbarram no shopping ou no Mercadão e tomam uma com você como forma de comemoração da chegada do fim do ano.
É claro que ainda não chegamos nos parentes. Como fazer para se entender com gente tão ocupada e com agendas tão diferenciadas? O casal começa a discussão de todos os anos: “Este ano vai ser com os meus pais ou com os seus?”, pergunta o marido bocó, que ainda não entendeu que todo fim de ano a prioridade vai ser bater as taças com os parentes dela. “Depois nós tomamos um lanche delicioso com os seus pais, amor”, diz a mulher, oferecendo um prêmio de consolação. “Tá bom, vida” – diz o cidadão, devidamente derrotado, colocando um ponto final na conversa.

Mesmo assim, fora das ceias e almoços de Natal e Réveillon, onde se reunirão aqueles cujas agendas se encaixaram, haverá muitos encontros de parentes que moram próximos para os tradicionais votos de felicidade, saúde e prosperidade.
Aposto que você, leitor, já deve ter comentado consigo mesmo, até chegar a este ponto do texto:
– Vai ser chato assim lá longe! Esse cara não gosta de gente, não é possível!
Calma aí, eu gosto de gente, sim, descontadas as exceções de praxe. Mas seria pedir demais que os abraços, beijos, tapas nas costas e outras demonstrações de afeto fossem melhor distribuídos ao longo do ano? Sei que é utópico, mas se todo esse festival de “confras” fosse sorteado nos 12 meses do ano, teríamos no máximo uma ou duas por mês. Já pensou que delícia?
Em março, reunião do pessoal do coro; em abril, os da firma antiga; em maio, o grupo de orações; em junho, as famílias das crianças da escola –já com direito a festinha junina incluída! E por aí afora. Sobraria dezembro só mesmo para os familiares e amigos bem próximos.

Outras vantagens. Nos comes e bebes, você não precisaria misturar bacalhau com leitoa à pururuca na mesma semana. Sobremesas maravilhosas seriam devidamente devoradas sem mistura de sabores. E melhor ainda, o “figueiredo” dos mais sedentos agradeceria o tempo hábil para a recuperação dos excessos de cervejas, vinhos e destilados de todos os tipos.
Mas, como diria o velho Robin para seu velho líder, “santa ingenuidade, Batman”, isto nunca vai acontecer. Dezembro vai continuar sendo a muvuca de sempre, com restaurantes e bares dizendo que não têm mais vagas para reservas, hipermercados com gente saindo pelo ladrão e o trânsito totalmente maluco.
Porém, pelo menos uma coisa está mudando. Os congestionamentos nas lojas de brinquedos e outros produtos natalinos estão menores, percebeu? É isto mesmo, cada vez mais gente compra quase tudo pelo e-commerce e se livra do mico das filas, empurrões e até discussões acaloradas.
No momento em que escrevo este texto, estamos a doze dias da véspera do Natal e a dezenove da véspera do Ano-Novo. Ou seja, já passamos quase a metade do mês, as “confras” estão ficando para trás e, aparentemente, está tudo bem. Então, fica combinado: vamos curtir de montão como fazemos todo fim de ano. E seja lá o que Deus quiser.
Boas festas!

> Wagner Matheus é jornalista (MTb nº 18.878) há 50 anos. É editor do SuperBairro. Mora na Vila Guaianazes há 24 anos.



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